04/11/2015

Elas são crianças, mas têm doenças de adultos

Elas têm 5, 10, poucos anos, mas já enfrentam problemas típicos de adultos, como colesterol alto, hipertensão e altos índices de glicose. Não há dados epidemiológicos no Brasil, mas entidades médicas estão constatando um aumento na incidência de doenças cardiometabólicas em crianças em função dos hábitos de vida moderna, principalmente. “Estamos vendo doenças normalmente esperadas na vida adulta ocorrendo com mais frequência na infância e na adolescência. O fato de as crianças estarem cada vez menos ativas é fator de risco”, alerta Raquel Pitchon dos Reis, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria – seção Minas Gerais.

Um recente estudo canadense sobre como a intervenção no estilo de vida pode melhorar o desempenho escolar de crianças e adolescentes com sobrepeso ou Obesidade revelou que de 2% a 3% dos pequenos pesquisados já apresentavam Hipertensão associada à Obesidade, que, no Brasil, já atingiu proporções de epidemia. Dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República mostram que três em cada 10 brasileirinhos, com idade entre 5 e 9 anos, estão acima do peso. Isso quer dizer que 33,5% das crianças brasileiras está fora da curva esperada para a idade. Na adolescência, a taxa cai para 20,5%.

Segundo especialistas, o estado nutricional na primeira infância repercute na vida adulta e, se esse quadro não for revertido, o Brasil poderá se tornar, em alguns anos, um dos países com maior número de adultos obesos do mundo. A importância da prevenção e educação foi um dos destaques do 37º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado este mês, ocasião em que a Sociedade Brasileira de Pediatria apresentou a cartilha A culpa é sua, também disponível no site www.smp.org.br, um guia ilustrado que mostra que a responsabilidade não é só da criança, mas de um complexo contexto em que está inserida.

“O ambiente influencia mais na Obesidade infantil que a genética. Esta pode ser aplacada por uma alimentação adequada e hábitos saudáveis”, explica Raquel Pitchon. Pesquisas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, do total de obesos em idade adulta, 85% já tinham sobrepeso aos 5 anos. O problema são as doenças crônicas que vêm juntas, como Hipertensão, Diabetes e doenças cardiovasculares. “O ideal é que o acompanhamento comece desde o quinto dia de vida, para que o pediatra consiga promover desenvolvimento saudável, com peso adequado, e identificando qualquer tipo de distorção”, afirma.

Brincar é se exercitar

Pesquisas mostram que brincadeiras comuns da infância estão favoravelmente associadas a controle e redução do peso. Por outro lado, essas atividades sofrem forte concorrência de uma série de hábitos sabidamente ligados ao sedentarismo. Segundo o cardiologista e médico do esporte Marconi Gomes da Silva, presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte, o aspecto positivo é o fato de as crianças relacionarem os exercícios físicos à atividade lúdica, o que deve ser valorizado e estimulado pelos educadores em saúde. “As brincadeiras podem diminuir o tempo de ociosidade das crianças e adolescentes, entrando no 'banco de horas' das atividades físicas praticadas nessa faixa etária”, sugere. 

A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que a prática de atividade física seja diária, de pelo menos 60 minutos em intensidade moderada a vigorosa, devendo ser incluídas atividades que fortaleçam músculos e ossos. “Esse é o tempo mínimo de exercícios físicos recomendado a crianças e adolescentes justamente por ser um período de formação osteomuscular e do desenvolvimento neurológico, psicológico e motor. A atividade pode ocorrer no contexto de brincadeiras, jogos, esportes, trabalho, transporte, recreação, educação física ou estar prevista em algum tipo exercício programado e sistematizado, como aulas de futebol, tênis, basquete, natação”, sugere Marconi.

Tempo de tela 

Segundo o cardiologista, em Belo Horizonte, é nessa fase que se construirá a base de uma vida saudável. Já se sabe, por exemplo, que a criança obesa apresenta alta probabilidade de se tornar um adulto obeso. Cerca de 30% dos adultos obesos foram crianças obesas e, entre os casos graves, essa proporção aumenta para entre 50% e 75%. Mas nem sempre o tempo dedicado à atividade física cresce, ao contrário do que vem ocorrendo com o tempo de tela – aquele dedicado a computadores, celulares, videogames, TV e tablets. “Merecem preocupação os dados encontrados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, que detectou que apenas 30,1% dos escolares eram ativos, ou seja, praticavam 300 minutos ou mais de atividade física por semana”, alerta Marconi. 

Fonte: http://sites.uai.com.br